ARTIGO
O superficial e a realidade
A cidadania saberá emergir destes tempos líquidos e confusos, é só questão de tempo e persistência.
Publicado em 16/08/2020 às 23:00
Um de meus primeiros hábitos ao despertar pela manhã é me atualizar das informações relevantes do dia. Aquela olhada básica nas redes sociais e em alguns sites de notícias. Imagino que a sociedade nunca produziu uma gama tão grande de informações e opiniões. É muita coisa circulando. Milhares de temas, antes obscuros, agora vem à tona por voz de interlocutores e fontes das mais diversas. De verdades científicas a fakenews, de especialistas a irresponsáveis, todos subiram na ribalta e se tornaram visíveis, em algum grau.
Penso que os tempos não retroagem. Por mais que eu seja um pouco saudosista, não iremos retornar no tempo em que fazíamos pesquisas na enciclopédia Barsa, ou que para descobrir uma música top assistíamos a MTV. Vivemos tempos de maior fluidez e velocidade nas informações e isto não irá mudar. Mas, questiono até que ponto essa época de superficialidade e excesso irá impactar nas condições da formação da cidadania. Por vezes impera a descrença na capacidade de superarmos este imbróglio ao qual esta quadra do desenvolvimento histórico nos levou.
Não creio na predominância por longo tempo da superficialidade. A vida real premia em efeitos, no longo prazo, quem é dedicado, quem compreende em sua complexidade os fenômenos. Por mais que possa parecer contraditório, o mesmo tempo de excesso de informações superficiais que deu voz a uma gama de seguidores do “pré-iluminismo” irá agir, retirando-os do protagonismo, logo ali, no segundo capítulo da história. Não há apenas aspectos negativos nesta ampliação da quantidade de atores com fala no cenário da vida cidadã, há, de fato, uma transição e um desconforto, e quem pretende influir precisa sair do seu quadrado.
A ciência não avançou por ser a ideologia vencedora, e sim pelo seu conhecimento reconhecido, por apresentar resultados e ser eficiente. Em meio a tantas informações convivem polêmicas inúteis e pesquisas importantes e sérias sendo feitas, em todas as áreas do conhecimento. A todos que ainda acreditam na democracia e nos valores básicos firmados pelo processo civilizatório eu afirmo, não tenham medo. A cidadania saberá emergir destes tempos líquidos e confusos, é só questão de tempo e persistência. A história nos prova, no longo prazo não vence quem é eloquente, até Hitler o era. Vence quem é consequente em suas falas e ações.
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Fonte: Jefferson Allan Muller
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