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A ARTE DE OBSERVAR

A arte de observar: Reflexões sobre a representatividade na política local

Uma análise da Câmara de Vereadores de Igrejinha à luz da experiência de Freud e das desigualdades de gênero e raça na política igrejinhense.

Publicado em 22/10/2024 às 09:45

(Foto: Arquivo pessoal)

Observar também é uma arte possível de ser aprendida. Há uma história envolvendo, Sigmund Freud (1856-1939), sobre a arte de observar. Durante três semanas, Freud foi até a Igreja de San Pietro in Vincoli, localizada em Roma, na Itália, das 8 horas da manhã até as 18 horas da tarde para contemplar em silêncio absoluto e anotar suas intuições, a estátua de Moisés que foi esculpida por Michelangelo (1475-1560) durante 40 anos. Calcula-se que Freud mirou a estátua em torno de 200 horas. Desta experiência de contemplação e reflexão veio à luz um dos seus livros, O homem Moisés e a religião monoteísta (Der Mann Moses und die monotheistische Religião – 1939). O conteúdo da obra não vem ao caso, mas o autor analisa a figura de Moisés e as origens do monoteísmo.

Na noite de segunda, 07 de outubro, tentei aprender um pouco, não com a mesma qualidade e quantidade de horas que Freud observou a estátua de Moisés na igreja San Pietro, a arte de observar a nossa casa legislativa ou Câmara de Vereadores da cidade de Igrejinha.

A observação um tanto rápida, ficou restrita a três aspectos:

  1. Primeiro ponto da observação. As falas na tribuna popular enalteceram a democracia, os valores democráticos e a importância da participação do povo, homens e mulheres na escolha de seus representantes. As eleições em nosso regime representativo são sem dúvida o grande momento da vida democrática. Um aspecto que chamou a atenção foi que ninguém questionou as urnas eletrônicas alegando que elas são fraudulentas e colocam a democracia em risco. Não escutei um pio sobre voto impresso e as baboseiras que nos acostumamos após 2022. E olha que tinha pessoas eleitas na plateia que durante um bom tempo vomitaram nas redes socias contra as urnas eletrônicas. A respeito do uso da internet por picaretas, é oportuno lembrar de Umberto Eco (1932-2016): “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”. Interessante é perceber que quando eleitas pelo voto através das urnas eletrônicas, estas pessoas não colocam o mecanismo sob suspeição. A dúvida surge somente quando seus candidatos são derrotados. É um tanto estranha a atitude. Parece mais ou menos uma criança que num jogo quando perde quer acabar com o jogo, mas quando ganha está tudo certo; não tem nada de errado; é só alegria. Em muitos adultos a parte infantil não é uma ilha, mas é um oceano gigante.

  2. Segundo ponto. A política em nossa cidade em seus 60 anos é uma atividade dominada pelos homens. Desde a nossa emancipação em 1964, já tivemos 14 legislaturas. Neste longo período, tivemos somente seis mulheres eleitas vereadoras. É muito pouco se pegarmos o percentual de mulheres votantes na composição do eleitorado. As mulheres votantes são a maioria dos eleitores. Mesmo após a lei 9504/1997, que obriga os partidos a reservar 30% das vagas a vereador, deputado estadual e federal, para as mulheres, o número de mulheres eleitas são uma minoria. A política é tremendamente machista e a dinâmica dos partidos não favorece a participação das mulheres e nem a renovação partidária. Muitas vezes, as mulheres são pagas para colocar o nome na nominata para que mais homens possam concorrer e também para atender as exigências legais. Quer dizer, as mulheres participam da política, mas com poucas expectativas de vitória. Acontece muitas vezes de elas serem usadas para beneficiar os homens. É claro que a cada eleições mais mulheres são eleitas, mas estamos muito, mas muito longe de uma igualdade de gênero na política. O desafio é trabalhar a consciência política das mulheres e os partidos adotarem uma dinâmica que torne as mulheres competitivas eleitoralmente.

  3. Terceiro ponto. Nossa cidade até hoje (60 anos, 14 legislaturas) elegeu homens na sua quase totalidade e homens brancos. Se pesquisarmos iremos encontrar dois ou talvez três homens negros de pele clara ou homens negros. Nossa cidade tem um número grande de pessoas negras. São homens e mulheres que trabalham, produzem, geram riquezas, contribuem para o crescimento da nossa cidade, mas não tem espaço na vida política dos partidos.

Para concluir. Precisamos fazer da política um espaço que contemple as diferentes etnias da nossa cidade. Política não é espaço somente para homem branco, mas é o lugar para mulheres e todas as pessoas que com seu trabalho republicano venham colaborar para o bem comum e o progresso humano, cultural e político da nossa cidade. Um espaço que se pretenda democrático, precisa contemplar a sociedade de forma representativa e ampla, dando lugar às falas das minorias, das mulheres, dos negros, dos trabalhadores, pois assim está composto o povo e, assim, deve ser uma câmara que o represente, se não, é apenas espaço para jogo político dos mesmos de sempre.

Sérgio Trombetta | Professor de filosofia, ética e antropologia | Igrejinha/RS

Sobre o Autor

Graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (1992) e mestrado em Filosofia pela PUCRS (1997). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Antropologia, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, Paulo Freire, ética, sociedade, democracia e direitos humanos. Doutorando em Educação pela UFRGS.

Sérgio Trombetta | Professor de filosofia, ética e antropologia | Igrejinha/RS


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